Hoje o dia cheira à domingo. Domingo é um dia que facilmente cai nos piores clichês, tais como “ah-que-preguiça” ou “ah-não-amanhã-é-segunda”. Não hoje, o hoje faz parte dos “trinta” dias das minhas férias. Queria estar dormindo, mas se eu me deitar, não vou conseguir dormir, tenho certeza. Começaria a pensar e repensar em coisas absurdas e inúteis. Mas hoje é sábado, não domingo. Estava aqui, agora, pensando como seria legal cuidar da trilha sonora de... alguma coisa. Sabe? Isso está na minha cabeça desde ontem. E em como seria libertador esquiar. E patinar no gelo, também. E em como estaria contente se tivesse lido um livro realmente bom. Ou escutado uma música realmente muito boa. Ao invés disso tudo, meus dias são cada vez mais arrastados pelo chão. E eu vou junto. Essa otimização de vida é que me incomoda. Esses dias contínuos, que se unem em um só, e que mesmo assim pode ser representado com uma grande tela branca. O sempre nada. E como é que eu teria uma boa memória se os dias são assim tão repetitivos, uma cópia escancarada do dia anterior? Já não posso mais ignorar, como ignoro uma mancha roxa que apareceu do nada, no joelho esquerdo. Quando era criança, vivia com roxos nas pernas e nos braços. Minha mãe dizia isso o tempo todo. “Mais um roxo?” e ficava apertando, só para eu gritar “ai! Pára com isso!”. Brincadeira sem graça. Deitar na cama e se perder enquanto olha para o teto não tem graça, também. Só funciona quando você precisa, de fato, deitar na cama e olhar para o teto. E virar de ponta-cabeça, sentir seu sangue descer até a cabeça. E levantar os pés e, talvez cantarolar a música que estiver tocando. Porque você provavelmente vai estar escutando uma música. Ou se não, uma logo vai tratar de aparecer à superfície da sua mente perturbada. É que eu gostava de virar cambalhotas e dar estrelinhas na escola, quando criança. Por isso os roxos. E eram tantos, que eu nem sentia mais. Negligenciava a dor assim como agora faço com a vida. Isso não é justo. Falando em cheiros de domingo, gosto de cheiro de chuva. E de baunilha, e de café. Existem vários cheiros que a gente não percebe, é fato. E muitos outros que a gente sente o tempo todo e não percebe. Chuva. Gotas, gotículas, fragmentos de algo que nasce e morre. Se ao menos tivesse uma tv a cabo para me entreter... se ao menos estivesse no ex-apartamento, olhando pela janela como eu sempre fazia quando estava entediada. Se ao menos eu tivesse companhia. Para quê? Solidão já mora em mim faz tempo. Desde a época em que me sentava nas escadarias do templo contando histórias para mim mesma, segurando objetos inanimados. Não é para parecer triste, porque nem é, eu gostava de falar sozinha quando não tinha pra quem contar histórias. Eu dizia que seria escritora. Não sei escrever (bem), mas queria. Inventava histórias com fantasmas. E uma vez, minha mãe me sugeriu fazer um jornalzinho no computador, imprimir e sair distribuindo para a vizinhança. E fiz. “Um jornal à serviço da criança”. Não me lembro do nome, mas acho que o logo era a cara do Bidu, porque era uma das únicas coisas que eu sabia desenhar naquela época. Fiz frases, fiz jogos, caça-palavras, piadas, quadrinhos, imprimi e saí. Era noite, e minha mãe me esperou no portão. Subi a rua, e fui descendo, tocando campainhas. “oi, fiz um jormal, é de graça, tó”. Coisas de criança, eu acho.
Gostava de quando chovia pedra de gelo na casa antiga. A gente corria para as janelas, íamos para o quintal e ficávamos ouvindo atentos ao barulho que elas faziam quando caíam no telhado. Olha só, nem percebi quando comecei a falar sobre o passado! São 12 horas e vinte e nove minutos de um sábado. Eu devia estar dormindo.