Os transeuntes que cruzavam seu caminho estavam todos apressados, mantendo a habitual imagem do paulistano ocupado. A lua estava suspensa de modo a fazer parecer que, a qualquer momento ela poderia despencar. Não era uma idéia nada agradável, além dos seus problemas todos, ter que agüentar o peso de uma noite inteira. Os detalhes das ruas e da paisagem urbana a levavam para um universo paralelo, mas o cheiro de café a acordou. Parou, inquieta, para olhar o novo restaurante que enfeitava bem aquela calçada suja e fedida. “Que idéia, abrir um local de alimentação num lugar como esse...” Não descartava a possibilidade de vir conhecê-lo algum dia, porém. Ao seu lado direito, podia enxergar um prédio, desses imponentes. Lembrou de súbito que essa noite precisava chegar em casa logo. O clima nada agradável a apressou e, percebendo que estava atrapalhando a passagem, caminhou depressa no sentido bairro. Sua distração perante as coisas mais simples a deixavam quase sempre em situações embaraçosas, e já estava cansada de saber disso e, mesmo assim, nada fazia. O dia desenrolara de uma maneira preguiçosa, espantando toda e qualquer necessidade de explicação a mais. Na verdade, ela não tem paciência para esse tipo de coisa. Chegando ao seu andar, pegou sua chave atrapalhadamente e girou a maçaneta. Sua sala de estar estava escura, obviamente, mas com feixes de luz que vinham do luar dependurado. Por um segundo ou dois, se esquecera de que estava ali apenas para apanhar seu casaco de frio, afinal, num tempo instável como este, não era fácil de adivinhar se esfriaria ou não. Raquel é precavida. Sempre foi assim. “Esqueci o casaco no escritório! Sabia que estava esquecendo alguma coisa. Devia ter prestado atenção no meu sexto sentido, eu sabia, eu sabia...”. Mais passos.