A janela estava fechada. Por ela, nada se podia ver além da persiana empoeirada. Sua mente também estava empoeirada, pensou. Com um profundo e único suspiro, fechou os olhos e tentou atrair o sono, que não veio nos últimos dois dias. Cansada mental e fisicamente, abriu os olhos já acostumados com a escuridão e fixou-os na janela. As persianas. A paisagem que ela escondia por trás daquele pó todo. Casas, prédios, outras janelas, outras vidas. Sentiu-se ainda mais esgotada, como se uma descarga psicológica tivesse percorrido suas veias repentinamente, como um choque, e tornou a fechar seus médios olhos. Uma vida mediana, pensou, fazendo crescer toda uma linha de pensamentos infinitos. Uma estatura média, seus dedos que não eram nem longos nem curtos, cabelos castanho médio. Medíocre. Se não parasse, seria capaz de proferir os mais cruéis defeitos para si mesma. Era assim. Fora assim durante todos os seus vinte e três anos. Começou a (re)inventar histórias surrealistas, que se transformaram em visões distorcidas de uma realidade grotesca, que se transformaram em sonhos em preto e branco, que se transformaram em zumbidos inacabáveis, que, por fim, se fecharam num eco surdo. As reticências a acompanharam durante todo seu sono, até que, com um estampido fraco vindo da cozinha, despertou assustada. “Ah (não)”, foi tudo o que conseguiu dizer. Entorpecida, se arrastou para fora da cama e abriu uma fresta da janela, que lhe revelou um dia nublado, perfeito.
Abriu a porta. Silêncio matinal. Jornais não lidos organizados numa caixa de papelão. Piso de madeira corrida. Cozinha. Copo d’água. Leite. Pão com patê. Leite. Sono. Torneira. Espelho. Roupas sujas no cesto. Box. Chuveiro. Sabonete. Xampu. Música-chiclete. Toalha. Roupas limpas. Cama. Lençol. Janela. Chuva. Ponto. Final...?